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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A Casa da Bruxa

Depois veio a escola. Primeiro, o “jardim da infância”, um período em que a criança vai pra escola só pra se acostumar com a idéia de que tem que ir pra escola.

Nessa minha primeira escolinha, tinha um vasto pátio, pracinha, etc, mas despertava especial interesse nos meus amigos, e por sugestão, em mim, uma casinha abandonada que ficava dentro da escola, porém além da área em que as tias queriam que a gente ficasse. Depois da pracinha, depois do campinho de futebol, tinha um mato de altura média, e lá no fundo desse matinho, quase contra o muro que divisava a escola da rua detrás, tinha aquela casinha, não muito maior do que costuma ser uma sala de máquinas. Tinha aspecto de abandonada, sempre de porta e janela fechadas. Podia ser qualquer coisa, mas alguém sugeriu que fosse a casa da bruxa, e todos os coleguinhas passaram a acreditar nisso.

A cada recreio, nossa turminha meio que fazia uma tentativa de expedição até a casa da bruxa. Supostamente, para confirmar o fato de que era a casa da bruxa. A cada recreio, nossa expedição chegava um pouquinho mais perto, mas sempre tinha uma coisa. Uma vez um dos meninos ficava com medo e empacava toda a turma; outra vez uma tia nos via e nos chamava de volta; e assim a expedição chegava cada vez mais perto e nunca chegava de fato.

De início, como os demais garotos, aceitei entusiasticamente a idéia de que era a casa da bruxa, porque a existência da bruxa provaria que sim, vivemos num mundo onde a mágica é possível, e portanto tudo é possível. Mas aquele eterno adiamento da expedição que finalmente confirmaria começou a me cansar. Comecei a desconfiar de que talvez fosse apenas uma casa abandonada. Mas não era tão mais divertido pensar que era a casa da bruxa? Pô, se era! Então eu decidi acreditar. E vi que conseguia. E quando eu acreditava, aquilo era real. Então eu tinha uma coisa muito muito interessante pra fazer na escola, mais importante que tudo: investigar a casa da bruxa. Fiquei surpreso e orgulhoso de ver que tinha adquirido uma nova forma de controle sobre minha mente. Se eu quisesse acreditar, voluntariamente, eu acreditava, apesar de qualquer outra coisa. E quando eu acreditava, aquilo era verdade, e sim, vivemos num mundo mágico.

Cheguei a sonhar que tava sendo perseguido pela bruxa. Foi de fato um pesadelo, em que a bruxa me perseguia pela floresta, e eu fiquei apavorado. Durante muito tempo depois, jurava que DEPOIS desse pesadelo, acordei, sentei na cama e ouvi a ameaçadora risada da bruxa, e vi na frente da minha cama um tapete vermelho flutuando no ar, a me torear do lado de fora do sonho, tirando sarro do meu medo.

Mais tarde, percebi que não tinha como provar, nem pra mim mesmo, que eu estava realmente acordado quando vi o tapete. Talvez eu estivesse sonhando que tinha acordado, ou talvez eu tivesse emprestado tanta energia à idéia que me autoprovoquei uma alucinação. Mas até que eu chegasse a essa conclusão, aquilo foi um fenômeno verídico pra mim. Apesar de ter sido uma experiência em si desagradável, ela confirmava a veracidade de uma realidade mágica que merecia ser explorada.

Foi divertido enquanto durou. Mas uma hora eu tive que admitir que, mesmo quando eu acreditava, por diversão, na bruxa, tinha uma vozinha lá no fundo do meu ego gritando baixinho: “no fundo, tu sabe que tu ta forçando a barra”. Quando me dei conta disso, toda aquela magia caiu por terra. Deixei de acreditar em bruxa, e percebi que foi uma ilusão eu achar que poderia controlar, voluntariamente, a minha própria crença. Porque não adianta tu querer acreditar naquilo que, no fundo, tu sabe que não é.

O curioso é que tudo isso se deu numa época em que eu ainda não tinha tido, ao que me lembre, nenhuma doutrinação religiosa (meus pais não eram fervorosos), o que só viria posteriormente, durante a alfabetização. Não‑obstante, foi cedo, no jardim de infância, que tive a minha primeira experiência mental com a crença, e fiz a minha escolha. É claro, mais adiante outras batalhas se travariam na minha consciência. Mas ali desabrochava em mim o embrião do pensamento racional, que germinou quando percebi que acreditar, para mim, não é uma escolha. A verdade simplesmente é, tu querendo ou não. O querer crer não faz a coisa ser real, e não vale a pena ter pesadelos por causa de uma coisa que, no fundo, tu sempre soube que não era real.

Um pouco mais tarde, nos primeiros tempos no colégio onde seria alfabetizado, vi crianças que ainda tinham esse deslumbramento, que eu abandonara no jardim da infância. Lá tinha um campo de futebol de chão de pedra, e certa feita tinha chovido e em seguida veio um sol forte. O calor repentino fez a água evaporar do chão em direção ao céu, formando uma bonita névoa ascendente. Algumas crianças começaram a dizer que era uma bruxa que estava fazendo aquela fumaça, e outras crianças já estavam começando a acreditar, e eu fiz questão de ensinar que era apenas a evaporação do que tinha chovido. Sinceramente acho que, se tu prestar atenção detidamente, a explicação natural é até mais interessante que a sobrenatural. Era um fenômeno raro da natureza, e belíssimo, que nunca mais vi igual.

Incrível, até mesmo chocante, é quando vejo adultos ainda iludidos em forçar manualmente suas crenças sobre a realidade. Conheço várias pessoas assim. Parece que não abandonaram aquele deslumbramento do jardim da infância, e escolhem no que vão acreditar como quem escolhe produtos no supermercado. Vão por impulso de preferência, a razão não passa nem perto.

Ah, a casa da bruxa? Se a expedição um dia chegou ao seu final? Bem, depois de inúmeras tentativas, cheguei à conclusão de que o único da turma realmente interessado na verdade era eu mesmo. Fui sozinho. Ninguém viu. A casa estava trancada. Forcei portas e janelas pra ver se alguma abria. Não mesmo. Sentei pelo chão e fiquei um bom tempo olhando a casa. Não podia provar que não tinha uma bruxa lá dentro, pois o acesso me era impossível, mas tinha uma profunda convicção de que era apenas uma casa abandonada, porque nada mais indicava que fosse o contrário. Trocando a bruxa por vida após a morte, o meu raciocínio continua o mesmo até hoje. -

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Diferenças entre homens e mulheres, sempre um assunto interessante

Agora comparem o vídeo postado acima com o seguinte trecho do livro “Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus”, de John Gray:

Capítulo 3 – Os homens vão para suas cavernas e as mulheres falam

Uma das maiores diferenças entre homens e mulheres é como eles lidam com o estresse. Os homens se tornam progressivamente concentrados e retraídos enquanto as mulheres se tornam progressivamente indefesas e emocionalmente envolvidas. Nessas horas, as necessidades de um homem para se sentir bem são diferentes das de uma mulher. Ele se sente melhor resolvendo problemas, enquanto ela se sente melhor conversando sobre problemas. Não entender e aceitar essas diferenças cria atrito desnecessário nos nossos relacionamentos. Vamos dar uma olhada num exemplo comum.

Quando Tom chega em casa, ele quer relaxar e se desligar através de uma leitura silenciosa do jornal. Ele está estressado com problemas não solucionados do seu dia e encontra alívio se esquecendo deles.
Sua esposa, Mary, também quer relaxar do seu dia estressante. Ela, entretanto, quer encontrar alívio conversando sobre os problemas do seu dia. A tensão que vagarosamente se constrói entre eles se torna ressentimento.
Tom secretamente pensa que Mary fala demais, enquanto Mary se sente ignorada. Sem entenderem sua diferenças, eles se separarão cada vez mais.

(...) Essas duas diferenças podem ser resolvidas primeiramente compreendendo com mais profundidade como homens e mulheres lidam com o estresse. Vamos novamente observar a vida em Marte e Vênus e recolher alguns insights sobre homens e mulheres.

LIDANDO COM O ESTRESSE EM MARTE E EM VÊNUS

Quando um marciano fica aborrecido, ele nunca fala sobre o que o está incomodando. Ele jamais chatearia outro marciano com seu problema, a menos que a assistência do seu amigo fosse necessária para resolver o problema. Em vez disso, ele fica calado e vai para sua caverna particular para pensar sobre o problema, ruminando sobre ele para achar a solução. Quando acha uma solução, se sente muito melhor e sai da caverna.
         Se não consegue encontrar uma solução, então ele faz alguma coisa para esquecer do problema, como ler o jornal ou jogar algum jogo. Ao liberar sua mente dos problemas do sue dia-a-dia, ele consegue gradualmente relaxar. Se seu estresse é realmente grande, ele precisa se envolver em alguma coisa ainda mais desafiadora, como corrida de automóveis ou alpinismo.
         PARA SE SENTIREM MELHOR, OS MARCIANOS VÃO PARA SUAS CAVERNAS PARA RESOLVER SEUS PROBLEMAS SOZINHOS.
...
         Quando uma venusiana fica aborrecida ou estressada com o seu dia, para encontrar alívio, ela procura por alguém em quem confie e então conversa com todos os detalhes sobre o problema do seu dia. Quando as venusianas compartilham suas fragilidades, elas repentinamente se sente melhor. Esse é o jeito venusiano.
         PARA SE SENTIREM MELHOR, AS VENUSIANAS SE ENCONTRAM E FALAM ABERTAMENTE SOBRE SEUS PROBLEMAS.
         Em Vênus, dividir os problemas com alguém é de fato considerado um sinal de amor e confiança e não uma chateação. As venusianas não se sentem envergonhadas de ter problemas. Seus egos não dependem de parecerem “competentes”, mas sim de participarem de relacionamentos amorosos. Elas compartilham abertamente seus sentimentos de fragilidade, confusão, desesperança e cansaço.
         Uma venusiana se sente bem consigo mesma quando tem amigos amáveis com quem compartilhar seus sentimentos e problemas. Um marciano se sente bem quando pode resolver seus problemas sozinho na sua caverna. Esses segredos de como se sentir bem ainda são aplicáveis hoje.”

Depois, o autor desenvolve mais essa questão da diferença entre os dois modos de lidar com o estresse, mas nesse trecho já dá pra ver a descoberta básica que dá origem a toda uma gama raciocínios sobre essa diferença crucial entre homens e mulheres. “The Nothing Box” é a caverna. Os homens anulam a energia emotiva através do desligamento. E a falação das mulheres é o meio natural para liberação da energia emotiva para fora. De ambos os modos, subtrai-se a parte emotiva do problema, e o que resta isolado é o seu componente lógico, que é o que realmente vai resolver o problema.
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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A Monomania


Não prometo que vou decifrar o insondável Fausto Marthe, letrista do Vzyadoq Moe. Nem pretendo que minha interpretação seja definitiva, posto que interpretar é escolher entre significados possíveis. Talvez suas letras nem se destinem a ser compreendidas, tal como o próprio nome da banda. Mas talvez mesmo no caos possa ser encontrado um sentido. Ouso tentar. Vamo lá.

De cara, o título: Monomania. Se é “mono”, deveria ser uno. Mas só pra contrariar, a letra é dividida em duas partes. E pra contrariar mais ainda, as duas partes não são recitadas uma depois da outra, mas simultaneamente. Então, além de interpretar cada uma, o desafio é encontrar a conexão de significado entre as duas partes.

“Monomania” é obsessão, idéia fixa.

1ª parte: Fogo e gelo.

Na primeira estrofe, a pista inicial está no último verso, “Eu vejo os homens antigos.” Então o leitor é remetido ao passado. Estamos falando da Antigüidade, primórdios do cristianismo, conforme as pistas que vão se revelando adiante.

Vejo cruzes no céu. E grito.

A primeira coisa que me ocorre é o horror da crucifixão, talvez do próprio Cristo, ou das milhares que os romanos fizeram antes e depois dele. Então eu grito de horror porque o messias acaba de ser crucificado. Ou eu grito porque os romanos crucificaram tanta gente, que o céu ficou cheio de almas sacrificadas na cruz. Todo o céu chora, e por isso vejo cruzes nas nuvens. Concomitantemente, tal visão também pode significar o prenúncio de meu próprio calvário.

Com toda esta dor estampada no céu, vejo um funesto dom. Dom é dádiva, presente, (também pode significar “talento”, mas eu acho que não é caso). No sentido teológico, é um bem (algo de bom) dado por deus. Funesto é aquilo que prognostica ou causa morte, desastre, desgraça; é sinistro. Funesto dom, portanto é uma aparente contradição. Quer dizer que a dádiva de deus prognostica – prevê, anuncia ou causa – morte. De fato, o deus cristão anuncia morte (funesto), pois esta é necessária para a ressurreição (dom).

Esse mandamento divino – o funesto dom - é contrário à vicissitude da carne. Vicissitude é inconstância, instabilidade, incerteza. A carne é incerta, temporária. Ora somos jovens demais, ora senis, ora sãos, ora enfermos, etc. O dom funesto se opõe a isso. Diz “não confies na carne; confie na morte e na ressurreição”.

A textura da carne é pagã. Os pagãos vivem pela carne. Bacanais, vida sexual desregrada, idolatria de imagens, sacrifício de animais – o cristianismo, quando surge, se opõe a isto, propondo uma vida mais rígida do ponto de vista moral, sexual, mas principalmente filosófico, ao opor o espiritual contra o corporal. Substitui a idolatria de estátuas por uma adoração interna, de consciência, e o sacrifício externo – do animal – por um interno - penitência. Tanto é assim, que o cristão se sente em contradição com o próprio corpo. Ao tocá-lo, sente sua textura e sente que ele é pagão, ou seja, não combina com a sua nova identidade espiritual. Seu corpo deveria ser puro, quase imaterial, para se adequar às exigências divinas.

2ª estrofe. O “porém” que eu enxergo é uma contradição. A superposição de fogo e gelo, que está no título desta parte primeira e também no refrão da música. Na mesma esteira, se contrapõe “cristalizado” com “ardente” e o “fogo” (das paixões serenas) com “gelo” (de cada alma).

O fogo morto das paixões serenas. É natural que associemos paixão com fogo. Mas para o autor, o fogo pode morrer que a paixão continua, só que agora ela é serena.

A paixão serena pode ser a do Cristo, morto na cruz - daí o fogo morto – e de todos os que o seguiram no martírio. Mas também pode ser qualquer paixão, que se acalma depois que passa a fase inicial dos ímpetos e das incertezas. Novamente, não há referência direta a Cristo no texto, mas é mais fácil entendermos o sentido da coisa quando pensamos na imagem do crucifixo, onde Jesus parece tão sereno e amoroso, apesar de morto.

“Sangue em Deus cristalizando e ardente”. Não é assim que eu ouço este trecho. Ouço só “cristalizado e ardente”. O “sangue em deus” devia fazer parte da letra antes de ser musicada. Cristalizar, aqui, pode significar “transformar”. O sangue divino tem uma dupla natureza. Ele é, no princípio, vinho, e depois se transforma em sangue.

E faz mais sentido, tanto pro meu ouvido quanto pra minha leitura, “cristalizado” em particípio, e não em gerúndio. Faço essa opção porque gramaticalmente é o que fecha, senão faltaria o objeto direto do “cristalizando”. O quê se está cristalizando (transformando) em deus? Na opção pelo particípio é o sangue que se transforma em (sangue de) deus.

O cristal, cuja aparência se assemelha ao gelo, se opõe ao “ardente”, que lembra o fogo. O sangue de Deus, no cristianismo, é o vinho, que é líquido e ao mesmo tempo da cor do fogo (e que pode “deixar de fogo” quem o consome).

Gelo de cada alma. O Vzy associa alma com gelo. Em outra faixa do “Ápice”, a “Expansão”, tem um trecho que diz “nem gelo perfura tua alma”. Não sei de onde vem essa concepção, só posso conjeturar.

A opção por representar a alma humana por uma matéria extremamente fria parece colidir com o senso comum. Em todo o caso, sempre que o Vzy falar em gelo, passo a presumir que se refira à alma.

O refrão diz “fogo e gelo”. Sabemos, pois, que gelo é a alma. E no “fogo morto das paixões serenas”, vimos que “morto” corresponde a “serenas”, portanto “fogo” corresponde à “paixão”, ainda que morto. Sempre que ouço o refrão “fogo e gelo”, me ocorre o que acontece quando juntamos os dois elementos: o resultado é água, fonte de vida, e que tende ao movimento, enquanto o gelo tende à inércia. Assim, nossa alma é como um bloco de gelo, que ao contato com a paixão (fogo), gera água, vida em movimento. Vale dizer, o que nos move é a paixão; sem ela, nossa alma é estática. Mas por favor, não restrinjam “paixão” ao seu sentido sexual – todo o sentido do texto é na outra direção. Paixão aqui é no seu sentido mais universal, como a de Cristo, por exemplo. Pode ser amor pela humanidade, pela eternidade (mais adiante se fala em vencer a morte), e até mesmo pela própria idéia fixa. Por isso “paixões”, no plural, é como aparece no texto. Paixão por futebol, por exemplo, está mais para idéia fixa do que para o amor propriamente dito. Nesse sentido, até o ódio poderia ser uma paixão. Não há, por vezes, inimigos que adoramos odiar? Vi uma vez um político (o Mangabeira Unger) se desculpar pelos excessos que teria dito (contra Lula), no calor da discussão, dizendo que foi o calor “da paixão cívica”. De fato, tudo o que nos (co)move é paixão.

Ainda sobre o gelo, vi metáfora semelhante ontem mesmo. No filme “Um Caminho para Dois”, o personagem de Tom Selleck diz à sua filha única: “Antes de você nascer, eu era como o gelo; quando você nasceu, eu me derreti.” Isso sugere que a metáfora possa ter sido colhida noutra referência cultural, ou então chegaram à mesma imagem por raciocínio semelhante.

3ª estrofe da parte primeira. Vejo o céu e grito, e choro – já vimos. Em “catacumbas abaixo”, confirma-se que as cruzes antes ditas tinham significado cristão mesmo, não era mera geometria. Mas agora é outro momento. Os cristãos estão se reunindo furtivamente nas catacumbas, nos subterrâneos. Estão em busca do Elixir (com maiúscula).

Interessante o que o Aurélio nos dá no verbete “elixir” (acepções aqui coloco por ordem de nosso interesse): 3. Na idade média, substância que era procurada pelos alquimistas e que, pela crença então corrente, era capaz de transformar metais grosseiros em ouro, e curar, fortalecer ou rejuvenescer o corpo humano (conf. Pedra filosofal). 2. bebida deliciosa, balsâmica ou confortadora. 4. fig. aquilo que tem efeito mágico ou miraculoso. 1. confeição farmacêutica de xaropes com alcoolatos.

A palavra “Elixir” coincide com o sangue de Cristo em todas as 4 acepções, até mesmo na mais básica, a de nº 1, onde há referência a “alcoolatos”, parentes do álcool, que entra na confecção do vinho. O elixir é o sangue de deus, para o fim de buscar ressurreição, vida eterna, juventude (espiritual) ou simplesmente um efeito miraculoso que nem mesmo se compreende ainda o que seja. Note-se que em “noites e noites” denota que a busca não se esgota em encontrar uma vez o ritual da comunhão; é uma busca incessante pelo Elixir, compreendido, assim, no seu sentido mais amplo, não só de bebida mágica, mas mais além, é uma busca por uma resposta espiritual para toda a aflição.

Ecúmene. O Aurélio dá “ecúmeno”; o dicionário da enciclopédia britânica e o Michaelis dão “ecúmena”, ambos da mesma origem grega “oikoumêne”. E com o mesmo significado. É um termo geográfico que significa “área de terra habitada normalmente pelo homem”. Nas fontes que eu consultei, somente os derivados é que tem sentido religioso: “ecumênico”, “ecumenismo”. Presumo que “ecúmene”, aqui, signifique o conjunto das pessoas que compartilham a mesma busca pelo tal elixir.

“Desejando por aqueles que tão temidos pela morte, mas que, na verdade, a temem, interiormente”. De novo acho que aqui o particípio foi trocado pelo gerúndio. O elixir é desejado por aqueles que aparentam ser mais fortes do que a morte, creio que se refere aos sacerdotes, que embora preguem a vida depois da morte, intimamente se pelam de medo de morrer, como todo mundo. “Desejo de vencer-se” pode ser o desejo de vencer a própria finitude.

Parte Segunda – A Tomada do Biotério. Pra quem não sabe, biotério é onde ficam os animais destinados a serem cobaias em experimentos científicos. Somente o título desta parte nos deixa antever que o personagem principal vai invadir violentamente o biotério e libertar os animais. Aliás, o personagem principal desta parte segunda é um sujeito ocultíssimo. O texto não revela quem é, e todos os verbos aparecem na 3ª pessoa do singular. Diferente da parte primeira, em que o sujeito era “eu”.

“Unha de sabre sobre o couro, cheiro de alho em suspensão.” Parece ser a idéia que o autor tem de como seria o biotério. As partes dos animais (unha, couro) são descritas separadas do respectivo animal, dando a idéia do sinistro holocausto que ali se dá.

“Galgou as ladeiras, até o cume.” Lá foi ele ao biotério. “E na estação, atraso do metropolitano.” Se o título já não tinha deixado claro, agora é fácil perceber que passamos da antiguidade à modernidade, pois nosso herói dependia da condução do metropolitano, que como veremos, trata-se de um trem.

No verso seguinte, parece haver uma empatia, ou simbiose, quando o herói liberta os animais. “Gozou o mundo” (libertou-se) e “sentiu o vento” (correu). “Arrepiou-se” (profunda comoção). Sensações percebidas tanto pelos animais em debandada quanto pelo seu libertador.

No verso seguinte meu ouvido discorda do encarte. O que ouço é “Na neurose a vida foi direita se espalhando e esquerda se esgueirando pelos trilhos.” Acho que os animais se espalharam pela rua e o seu libertador fugiu pelo outro lado, pelo caminho do trem, que tinha se atrasado. Ele se reconhece como neurótico e faz uma analogia entre sua façanha, a tomada do biotério, e sua neurose. Sua vida se divide em duas partes, uma para cada lado, uma correndo livre, outra se esgueirando, fugindo.

Em “Dr. disse”, parece que ele foi apanhado, provavelmente porque tendo perdido o trem, não conseguiu se afastar a tempo. E aí vem o diagnóstico:

“Simbiose multiplicativa de ciências, ou organogênese encilhada, a terapia freudiana não pode dissolver-lhe.”

Francamente, esses termos científicos parecem ter sido juntados ao acaso, mas em todo o caso, se a terapia freudiana não pode dissolver, é porque o troço é incurável, mesmo.

“Organogênese” é o processo de formação dos órgãos, após o estágio embrionário. “Encilhado” é acavalado, sobreposto, colocado um sobre o outro. “Simbiose multiplicativa de ciências” dá a impressão, para mim, que o indivíduo está consciente em vários níveis, e que estes níveis estão se combinando e criando ainda outros níveis.

A loucura do paciente consiste em ver-se, alternada ou simultaneamente, no mundo moderno, libertando as cobaias, na antiguidade, buscando o elixir, e em vários outros planos de existência, sempre com a idéia fixa de buscar libertação.

Em então perdeu o ritmo. Nosso herói se entrega, finalmente, aos braços da loucura.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Abandone o Vodu

Dizem que tem certas culturas na África que acreditam tanto em vodu, que quando o cara abre a porta de casa e vê o despacho na soleira, acredita tanto que vai morrer que acaba morrendo mesmo, se não do coração, na hora, pouco tempo depois, de outra coisa.

Tinha que existir o equivalente pra fazer alguém amar a gente. Já pensou?, a mina abre a porta de casa e vê em cima do capacho uma caixa de bombom, uma flor e um perfume e pensa: “Meu Deus! Vo me apaixonar!”

É, mas não estamos na África. E admitamos, o vodu na verdade é uma ilusão. O único efeito que o vodu possa produzir, vem exclusivamente da crença que a pessoa‑alvo possa ter nele. Se o alvo nem desconfiar que alguém está pedindo ele perante o além, nada vai acontecer.

Nada vai acontecer com o alvo, quero dizer. Porque o detalhe que passa despercebido à primeira vista é que o vodu produz um efeito também e principalmente naquele que o pratica. Sua consciência absorveu todo o mal que de seu pensamento, através do ritual, transformou-se em ato. Sentir-se-á culpado, ou se tornará mais mau. Se for um trabalho para o bem, ficará, pelo menos, com a alma endividada, porque recorreu aos favores do além (sem ter ido ainda para lá). De qualquer forma, trará conseqüências espirituais ou psicológicas, certamente para o praticante, incertamente para o alvo.

O que tem de mais parecido com o vodu, no Brasil, são certas linhas de umbanda e/ou esotéricas. Você pode mandar fazer “trabalhos” para trazer a pessoa amada, de volta ou pela primeira vez.

Aí, se der certo, é porque o feitiço funcionou. Se não der certo, ou é porque a pessoa tem um santo forte, ou é porque tem mais alguém fazendo vodu no sentido contrário (ou seja, sempre tem uma desculpa). Pode ser um rival teu, ou a própria pessoa, que consultou outro feiticeiro, descobriu que tem gente fazendo feitiço contra si, e agora ta fazendo feitiço pra desmanchar todos os feitiços. O que se aconselha, neste caso, é que tu continue perseverando nas tuas oferendas ao sobrenatural (por uma módica quantia, é claro), confiante de que algum dia, no final, prevalecerás. Conheço gente que passa a vida toda nessa função, sempre com infindáveis pendengas tramitando nos tribunais do além.

Como diria Rogério Skylab, “Eu to por dentro porque to por fora”. Mas já tive dentro. Ah, meus amigos!, dor de corno faz o cara procurar qualquer provável remédio. Quem já não esteve nessa situação que atire o primeiro meteoro! Eu fiquei nesse circo por algum tempo, até ver o ciclo se repetir algumas vezes, e me dei conta de que o círculo sempre te leva ao ponto de partida. Então teria sido melhor ter visualizado, desde o início, que estava no ponto de partida, ao invés de ficar desperdiçando tempo de vida dando volta e cabeçada, e se desgastando no processo. Quando tu realmente reconhece que está no ponto de partida, só aí virá a pergunta correta: qual é o ponto de chegada?

É claro que não estou querendo dizer pra largar o vodu na religião e/ou no amor. Quero dizer algo mais amplo: largue o vodu em geral, na vida, nas relações sociais, no teu íntimo, em tudo. Não manipules, não invoques, não indagues, não percas tempo em mentir. Não transformes o teu ódio em ritual. Não espere ser raptado por serafins. Quem vive mergulhado na ilusão sempre acaba batendo com a cara no muro. Quem faz vodu sempre toma no *.

Alguém poderá dizer que tem gente que precisa da ilusão, se não pira. Mas eu não acredito nisso. Sempre tem um jeito melhor de lidar com as coisas que não é ilusório. A verdade vos libertará. Portanto a mentira vos aprisionará. O que pode acontecer é a gente não saber, de momento, como libertar alguém com a verdade. Então não basta conhecer a verdade, é preciso saber usá-la. Esse aprendizado não vem do dia pra noite, é preciso perseguir a verdade, sempre, estudá-la, discuti-la, e até mesmo questioná-la. Ou você afia as idéias, ou afina o discurso.

E não venham me dizer que cada um tem a sua verdade, como se estivéssemos no mundo cada um num compartimento estanque. Acredito na troca, acredito na comunicação, acredito que aprender é rever suas próprias posições constantemente. Acredito, sobretudo, na responsabilidade de cada um sobre o próximo, afinal, vivemos num mundo de causa e efeito, num dominó vivo que cobre todo o planeta. O que cada um tem é a sua teoria. E teorias servem para serem testadas.

Falaremos mais sobre isso outro dia. Ou não.

O que eu queria deixar, neste post inaugural, é o seguinte. Vodu é ilusão. A ilusão sempre faz mal. Abandone o vodu. Abandone a ilusão. Isso só vai te fazer mal.
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