Não prometo que vou decifrar o insondável Fausto Marthe, letrista do Vzyadoq Moe. Nem pretendo que minha interpretação seja definitiva, posto que interpretar é escolher entre significados possíveis. Talvez suas letras nem se destinem a ser compreendidas, tal como o próprio nome da banda. Mas talvez mesmo no caos possa ser encontrado um sentido. Ouso tentar. Vamo lá.
De cara, o título: Monomania. Se é “mono”, deveria ser uno. Mas só pra contrariar, a letra é dividida em duas partes. E pra contrariar mais ainda, as duas partes não são recitadas uma depois da outra, mas simultaneamente. Então, além de interpretar cada uma, o desafio é encontrar a conexão de significado entre as duas partes.
“Monomania” é obsessão, idéia fixa.
1ª parte: Fogo e gelo.
Na primeira estrofe, a pista inicial está no último verso, “Eu vejo os homens antigos.” Então o leitor é remetido ao passado. Estamos falando da Antigüidade, primórdios do cristianismo, conforme as pistas que vão se revelando adiante.
Vejo cruzes no céu. E grito.
A primeira coisa que me ocorre é o horror da crucifixão, talvez do próprio Cristo, ou das milhares que os romanos fizeram antes e depois dele. Então eu grito de horror porque o messias acaba de ser crucificado. Ou eu grito porque os romanos crucificaram tanta gente, que o céu ficou cheio de almas sacrificadas na cruz. Todo o céu chora, e por isso vejo cruzes nas nuvens. Concomitantemente, tal visão também pode significar o prenúncio de meu próprio calvário.
Com toda esta dor estampada no céu, vejo um funesto dom. Dom é dádiva, presente, (também pode significar “talento”, mas eu acho que não é caso). No sentido teológico, é um bem (algo de bom) dado por deus. Funesto é aquilo que prognostica ou causa morte, desastre, desgraça; é sinistro. Funesto dom, portanto é uma aparente contradição. Quer dizer que a dádiva de deus prognostica – prevê, anuncia ou causa – morte. De fato, o deus cristão anuncia morte (funesto), pois esta é necessária para a ressurreição (dom).
Esse mandamento divino – o funesto dom - é contrário à vicissitude da carne. Vicissitude é inconstância, instabilidade, incerteza. A carne é incerta, temporária. Ora somos jovens demais, ora senis, ora sãos, ora enfermos, etc. O dom funesto se opõe a isso. Diz “não confies na carne; confie na morte e na ressurreição”.
A textura da carne é pagã. Os pagãos vivem pela carne. Bacanais, vida sexual desregrada, idolatria de imagens, sacrifício de animais – o cristianismo, quando surge, se opõe a isto, propondo uma vida mais rígida do ponto de vista moral, sexual, mas principalmente filosófico, ao opor o espiritual contra o corporal. Substitui a idolatria de estátuas por uma adoração interna, de consciência, e o sacrifício externo – do animal – por um interno - penitência. Tanto é assim, que o cristão se sente em contradição com o próprio corpo. Ao tocá-lo, sente sua textura e sente que ele é pagão, ou seja, não combina com a sua nova identidade espiritual. Seu corpo deveria ser puro, quase imaterial, para se adequar às exigências divinas.
2ª estrofe. O “porém” que eu enxergo é uma contradição. A superposição de fogo e gelo, que está no título desta parte primeira e também no refrão da música. Na mesma esteira, se contrapõe “cristalizado” com “ardente” e o “fogo” (das paixões serenas) com “gelo” (de cada alma).
O fogo morto das paixões serenas. É natural que associemos paixão com fogo. Mas para o autor, o fogo pode morrer que a paixão continua, só que agora ela é serena.
A paixão serena pode ser a do Cristo, morto na cruz - daí o fogo morto – e de todos os que o seguiram no martírio. Mas também pode ser qualquer paixão, que se acalma depois que passa a fase inicial dos ímpetos e das incertezas. Novamente, não há referência direta a Cristo no texto, mas é mais fácil entendermos o sentido da coisa quando pensamos na imagem do crucifixo, onde Jesus parece tão sereno e amoroso, apesar de morto.
“Sangue em Deus cristalizando e ardente”. Não é assim que eu ouço este trecho. Ouço só “cristalizado e ardente”. O “sangue em deus” devia fazer parte da letra antes de ser musicada. Cristalizar, aqui, pode significar “transformar”. O sangue divino tem uma dupla natureza. Ele é, no princípio, vinho, e depois se transforma em sangue.
E faz mais sentido, tanto pro meu ouvido quanto pra minha leitura, “cristalizado” em particípio, e não em gerúndio. Faço essa opção porque gramaticalmente é o que fecha, senão faltaria o objeto direto do “cristalizando”. O quê se está cristalizando (transformando) em deus? Na opção pelo particípio é o sangue que se transforma em (sangue de) deus.
O cristal, cuja aparência se assemelha ao gelo, se opõe ao “ardente”, que lembra o fogo. O sangue de Deus, no cristianismo, é o vinho, que é líquido e ao mesmo tempo da cor do fogo (e que pode “deixar de fogo” quem o consome).
Gelo de cada alma. O Vzy associa alma com gelo. Em outra faixa do “Ápice”, a “Expansão”, tem um trecho que diz “nem gelo perfura tua alma”. Não sei de onde vem essa concepção, só posso conjeturar.
A opção por representar a alma humana por uma matéria extremamente fria parece colidir com o senso comum. Em todo o caso, sempre que o Vzy falar em gelo, passo a presumir que se refira à alma.
O refrão diz “fogo e gelo”. Sabemos, pois, que gelo é a alma. E no “fogo morto das paixões serenas”, vimos que “morto” corresponde a “serenas”, portanto “fogo” corresponde à “paixão”, ainda que morto. Sempre que ouço o refrão “fogo e gelo”, me ocorre o que acontece quando juntamos os dois elementos: o resultado é água, fonte de vida, e que tende ao movimento, enquanto o gelo tende à inércia. Assim, nossa alma é como um bloco de gelo, que ao contato com a paixão (fogo), gera água, vida em movimento. Vale dizer, o que nos move é a paixão; sem ela, nossa alma é estática. Mas por favor, não restrinjam “paixão” ao seu sentido sexual – todo o sentido do texto é na outra direção. Paixão aqui é no seu sentido mais universal, como a de Cristo, por exemplo. Pode ser amor pela humanidade, pela eternidade (mais adiante se fala em vencer a morte), e até mesmo pela própria idéia fixa. Por isso “paixões”, no plural, é como aparece no texto. Paixão por futebol, por exemplo, está mais para idéia fixa do que para o amor propriamente dito. Nesse sentido, até o ódio poderia ser uma paixão. Não há, por vezes, inimigos que adoramos odiar? Vi uma vez um político (o Mangabeira Unger) se desculpar pelos excessos que teria dito (contra Lula), no calor da discussão, dizendo que foi o calor “da paixão cívica”. De fato, tudo o que nos (co)move é paixão.
Ainda sobre o gelo, vi metáfora semelhante ontem mesmo. No filme “Um Caminho para Dois”, o personagem de Tom Selleck diz à sua filha única: “Antes de você nascer, eu era como o gelo; quando você nasceu, eu me derreti.” Isso sugere que a metáfora possa ter sido colhida noutra referência cultural, ou então chegaram à mesma imagem por raciocínio semelhante.
3ª estrofe da parte primeira. Vejo o céu e grito, e choro – já vimos. Em “catacumbas abaixo”, confirma-se que as cruzes antes ditas tinham significado cristão mesmo, não era mera geometria. Mas agora é outro momento. Os cristãos estão se reunindo furtivamente nas catacumbas, nos subterrâneos. Estão em busca do Elixir (com maiúscula).
Interessante o que o Aurélio nos dá no verbete “elixir” (acepções aqui coloco por ordem de nosso interesse): 3. Na idade média, substância que era procurada pelos alquimistas e que, pela crença então corrente, era capaz de transformar metais grosseiros em ouro, e curar, fortalecer ou rejuvenescer o corpo humano (conf. Pedra filosofal). 2. bebida deliciosa, balsâmica ou confortadora. 4. fig. aquilo que tem efeito mágico ou miraculoso. 1. confeição farmacêutica de xaropes com alcoolatos.
A palavra “Elixir” coincide com o sangue de Cristo em todas as 4 acepções, até mesmo na mais básica, a de nº 1, onde há referência a “alcoolatos”, parentes do álcool, que entra na confecção do vinho. O elixir é o sangue de deus, para o fim de buscar ressurreição, vida eterna, juventude (espiritual) ou simplesmente um efeito miraculoso que nem mesmo se compreende ainda o que seja. Note-se que em “noites e noites” denota que a busca não se esgota em encontrar uma vez o ritual da comunhão; é uma busca incessante pelo Elixir, compreendido, assim, no seu sentido mais amplo, não só de bebida mágica, mas mais além, é uma busca por uma resposta espiritual para toda a aflição.
Ecúmene. O Aurélio dá “ecúmeno”; o dicionário da enciclopédia britânica e o Michaelis dão “ecúmena”, ambos da mesma origem grega “oikoumêne”. E com o mesmo significado. É um termo geográfico que significa “área de terra habitada normalmente pelo homem”. Nas fontes que eu consultei, somente os derivados é que tem sentido religioso: “ecumênico”, “ecumenismo”. Presumo que “ecúmene”, aqui, signifique o conjunto das pessoas que compartilham a mesma busca pelo tal elixir.
“Desejando por aqueles que tão temidos pela morte, mas que, na verdade, a temem, interiormente”. De novo acho que aqui o particípio foi trocado pelo gerúndio. O elixir é desejado por aqueles que aparentam ser mais fortes do que a morte, creio que se refere aos sacerdotes, que embora preguem a vida depois da morte, intimamente se pelam de medo de morrer, como todo mundo. “Desejo de vencer-se” pode ser o desejo de vencer a própria finitude.
Parte Segunda – A Tomada do Biotério. Pra quem não sabe, biotério é onde ficam os animais destinados a serem cobaias em experimentos científicos. Somente o título desta parte nos deixa antever que o personagem principal vai invadir violentamente o biotério e libertar os animais. Aliás, o personagem principal desta parte segunda é um sujeito ocultíssimo. O texto não revela quem é, e todos os verbos aparecem na 3ª pessoa do singular. Diferente da parte primeira, em que o sujeito era “eu”.
“Unha de sabre sobre o couro, cheiro de alho em suspensão.” Parece ser a idéia que o autor tem de como seria o biotério. As partes dos animais (unha, couro) são descritas separadas do respectivo animal, dando a idéia do sinistro holocausto que ali se dá.
“Galgou as ladeiras, até o cume.” Lá foi ele ao biotério. “E na estação, atraso do metropolitano.” Se o título já não tinha deixado claro, agora é fácil perceber que passamos da antiguidade à modernidade, pois nosso herói dependia da condução do metropolitano, que como veremos, trata-se de um trem.
No verso seguinte, parece haver uma empatia, ou simbiose, quando o herói liberta os animais. “Gozou o mundo” (libertou-se) e “sentiu o vento” (correu). “Arrepiou-se” (profunda comoção). Sensações percebidas tanto pelos animais em debandada quanto pelo seu libertador.
No verso seguinte meu ouvido discorda do encarte. O que ouço é “Na neurose a vida foi direita se espalhando e esquerda se esgueirando pelos trilhos.” Acho que os animais se espalharam pela rua e o seu libertador fugiu pelo outro lado, pelo caminho do trem, que tinha se atrasado. Ele se reconhece como neurótico e faz uma analogia entre sua façanha, a tomada do biotério, e sua neurose. Sua vida se divide em duas partes, uma para cada lado, uma correndo livre, outra se esgueirando, fugindo.
Em “Dr. disse”, parece que ele foi apanhado, provavelmente porque tendo perdido o trem, não conseguiu se afastar a tempo. E aí vem o diagnóstico:
“Simbiose multiplicativa de ciências, ou organogênese encilhada, a terapia freudiana não pode dissolver-lhe.”
Francamente, esses termos científicos parecem ter sido juntados ao acaso, mas em todo o caso, se a terapia freudiana não pode dissolver, é porque o troço é incurável, mesmo.
“Organogênese” é o processo de formação dos órgãos, após o estágio embrionário. “Encilhado” é acavalado, sobreposto, colocado um sobre o outro. “Simbiose multiplicativa de ciências” dá a impressão, para mim, que o indivíduo está consciente em vários níveis, e que estes níveis estão se combinando e criando ainda outros níveis.
A loucura do paciente consiste em ver-se, alternada ou simultaneamente, no mundo moderno, libertando as cobaias, na antiguidade, buscando o elixir, e em vários outros planos de existência, sempre com a idéia fixa de buscar libertação.
Em então perdeu o ritmo. Nosso herói se entrega, finalmente, aos braços da loucura.
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